
Existe uma estranheza em ser quem se é diante dos outros. Como se a própria existência fosse um vestido de tecido áspero, um sapato que não encaixa no pé. Algo desconfortável, inquieto, deslocado. A ansiedade social é essa sensação de estar sempre no palco de um teatro lotado sem ter ensaiado nenhuma fala. E os olhos — ah, os olhos dos outros — pesam, julgam, desmontam.
Dentro da mente, há um ruído contínuo. “Eu disse algo estúpido?” “O que pensam de mim agora?” “Eu deveria ter ficado calada.” A voz da inadequação não grita, mas sussurra incessante, como um vento gelado que se infiltra pelas frestas. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), chamamos isso de distorções cognitivas. O pensamento catastrófico de que tudo dará errado, a leitura mental que insiste em adivinhar o que os outros estão pensando, a personalização que transforma cada risada ao longe em um riso de deboche. São armadilhas sutis, mas cruéis.
A psicoterapia ensina que os pensamentos não são sentenças definitivas. Eles são como nuvens — densas, ameaçadoras às vezes, mas passageiras. Ensinamos a olhar para eles com curiosidade, como quem observa um céu instável, sabendo que nenhuma tempestade dura para sempre. O que parece verdade absoluta é, muitas vezes, apenas um eco de medos antigos.

E então vem o experimento comportamental. Falar mesmo quando a voz treme. Olhar nos olhos ainda que por segundos. Permitir-se estar presente sem fugir. Pequenas vitórias que somam, um tijolo de cada vez, até que o edifício da vida se torne habitável de novo.
Porque talvez a inadequação não seja um erro de fábrica, mas apenas uma história mal contada que, com paciência, podemos reescrever.
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